quinta-feira, 24 de junho de 2010

Mouros e Mouras encantadas

Mouros e Mouras míticas do Concelho de Mogadouro

"Ponta de relha ou pé de ovelha...."


Em Valverde


O caminho da moura encantada


Em Valverde, concelho de Mogadouro, num sítio chamado Cabeço do Castelo há um tesouro encantado numa área de terreno. Diz o povo que só pode ser achado pela "ponta da relha e pé da ovelha".

Há também ali perto os Barrocais, onde fica a "Fraga dos Mouros". Esta fraga está coberta de musgo, mas pode ver-se nela um carreirão a todo o comprimento onde o musgo não nasce. O povo diz que é o caminho por onde passava uma moura encantada.

Na aldeia há também duas fontes de mergulho, onde se diz que está uma moura encantada. Os mais velhos, especialmente as mães, diziam às crianças para não irem para lá sozinhas, pois a moura apanhava os meninos.

Em Zava

Lenda do Poço do Dourado


Na povoação de Zava, do concelho de Mogadouro, há um espinhaço montanhoso que é conhecido por "Cimas de Mogadouro". E neste local está uma gruta a que o povo chama "Poço Dourado", a propósito de uma lenda muito antiga.

Conta-se que uma jovem pastora, enquanto o gado bebia, sentou-se na borda do poço a descansar e, de repente, viu reluzir na água um cordão de ouro. A pastora apressou-se a volteá-lo na mão, só que dobou, dobou, e o cordão nunca mais acabava.

E como o peso já era muito, resolve então cortar o cordão com um calhau afiado, dizendo:


– Para um par de meias já chega.

E nesse momento, ouviu uma voz desconhecida que lhe disse:

– Dobraste o meu encanto e fizeste a tua desgraça.


Era uma moura que ali estava encantada. Aturdida, a pastora olhou para um lado e outro e não viu ninguém. E nesse instante, todo o ouro desapareceu.

Em Santo André

A Fonte do Ouro


em Santo André, na freguesia de Valverde, Mogadouro, uma fonte onde as mulheres costumavam ir lavar a roupa. É conhecida como a Fonte do Ouro e diz o povo que está lá uma moura encantada.

Conta-se também que um dia uma mulher estava a lavar a roupa naquela fonte quando se lhe ardulhou uma corrente de ouro ao botão de uma camisa. Ela começou então a puxar, a puxar, e a dada altura, sentindo-se já cansada, disse:

– Valha-me Deus!

Ao dizer tal, a corrente desapareceu. A mulher ficou muito desiludida e contou no povo o sucedido. Por isso a fonte passou a chamar-se "Fonte do Ouro".

Em Vale da Madre

A Lenda de Vale da Madre


Conta-se que os mouros estavam na serra de Mogadouro e que os cristãos correram atrás deles, indo encontrar-se num vale onde travaram uma grande batalha.

Aí os cristãos, no meio de grande aflição, pediram ajuda a Nossa Senhora, prometendo dar àquele lugar o nome de Vale da Madre de Deus. Como ganharam a batalha, cumpriram a promessa e assim nasceu o nome desta terra.

Em Brunhoso


A Lenda da Fraga do Poio


A certa distância da aldeia de Brunhoso, concelho de Mogadouro, no caminho do Poio, existe uma grande fraga redonda, com uma grande rachadela, e que é chamada a Fraga da Tecedeira, embora também seja conhecida como a Fraga do Poio.

Contam os mais velhos que, em tempos antigos, houve por aquelas bandas uma luta com os mouros, onde foi raptado um príncipe cristão que tinha amores com uma bela princesa moura.

Passado algum tempo, quando os mouros já se tinham ido destas paragens, apareceu ali a jovem, cheia de desgosto, e refugiou-se na dita fraga, na esperança de o príncipe um dia voltar. Esperou semanas, meses e anos. E depois de tanto esperar, resolveu pedir à senhora Miquelina, que ali passava todos os dias, a ver se lhe arranjava um tear para ocupar o tempo.

A senhora Miquelina, como era a tecedeira mais importante da região, arranjou-lhe então um tear. E dizem que ao passar-lho para as mãos, este transformou-se num tear de ouro. O príncipe nunca mais apareceu, mas ela continuou lá a viver e a tecer no seu tear. Diz-se que ainda hoje espera a chegada do príncipe. E a fraga passou a ser conhecida como a Fraga da Tecedeira.

Na aldeia cumpre-se hoje a tradição de as pessoas mais velhas chamarem as mais novas e perguntarem:


– Quereis ouvir uma princesa a tecer?

As crianças encostam a cabeça e a pessoa mais velha dá-lhe com ela na fraga.

Elas ficam então com um zunzum na cabeça, e perguntam-lhes:

– Então, ouvistes?


As crianças dizem que sim. Mas, quer tenham ouvido ou não, aprendem pelo menos que nem em todas as fantasias se pode acreditar. E amanhã, serão elas a transmitir essa mesma lição a outros.

Em Algosinho


O Castelo do Mau Vizinho


Por baixo deste lugar [Algozinho, concelho de Mogadouro] se vê, e ainda fora da terra, em cinquenta palmos de altura, um castelo demolido, que dizem ser fabricado pelos mouros e, pelos vestígios que manifesta, fora bem fortalecido.

A povoação de Algosinho (...) assenta na encosta da ribeira de Algosinho, coisa de seiscentos metros acima do Castelo do Mau Vizinho, também chamado Castelo dos

Mouros, ou simplesmente Castelo, que é um pequeno recinto de vinte metros de diâmetro, pouco mais ou menos, cercado de muros de mais de metro de grossura, por um fosso e por uma faixa de dez metros de largura cravada de pedras de mais de metro de altura com a ponta aguçada para cima, à laia de estrepes, a fim de dificultar os ataques da cavalaria e infantaria.

Em Vilarinho dos Galegos

O Castelo dos mouros de Vilarinho dos Galegos


No castelo dos mouros, de Vilarinho dos Galegos [Concelho de Mogadouro], segundo diz a lenda, estão encantados um mouro e uma moura. Os tesouros neste castelo são enormes – diz-se. Ali existem teares de ouro, baús e malas atestadinhos de moedas de ouro, barras de ouro e prata, aos montes. Este tesouro desencantado chegaria para enriquecer o país inteiro.
Conta-se que em tempos um homem destes sítios visitava amiudadas vezes o castelo. Um dia apareceram-lhe os mouros, mostraram-lhe aquela grandiosa riqueza e disseram-lhe:

– Se queres ser senhor de todos estes tesouros, hás-de desencantar-nos. Para isso basta que tenhas coragem. Estás aqui, neste local, na noite de S. João, à meia noite em ponto; aqui virá ter um toiro bravo, urrando e fazendo barulho, mas não tenhas medo, que o toiro sou eu; não hás-de fugir nem falar no teu Deus; logo que chegue a ti põe-lhe a mão na testa, e basta.
O homem aceitou. Na noite de S. João, à meia noite, lá estava no lugar marcado. Mas, eis que aparece o toiro, urrando e escavando no chão com as mãos e pés; e o homem, cheio de medo, vendo aproximar o toiro, foge gritando:

– Ai Jesus, quem me acode! Ai Jesus, quem me acode!
Tudo estava transtornado, é claro, e os mouros que se julgavam livres, desapareceram no meio de suspiros e dolorosos ais, e lá voltaram para o seu penoso cativeiro com o encanto dobrado.




No termo de Vilarinho dos Galegos, concelho de Mogadouro, quilómetro e meio daquele povo, fica o Castelo dos Mouros, de que ainda há paredes com dois e três metros de altura, restos de muros e fossos em volta. Está situado num alto apenas acessível pelo lado norte, onde a defesa é constituída por larga facha de lajes de meio metro de altura enterradas no solo com a ponta aguda para cima, só mui dificilmente permitindo trânsito entre elas. Pelos outros lados defendem-no naturalmente os despenhadeiros que se precipitam sobre o Douro.

No Castelo dos Mouros está uma moura encantada, que na manhã de São João espaneja ao sol a capa de D. Feliz, que foi governador do Castelo, reclamada de campainhas de oiro e prata.


Em Bemposta


A Moura do castelo de Bemposta


Na vila de Bemposta [concelho de Mogadouro] houve em tempos uma mulher, casada, que tinha forno em casa onde todos os meses cozia o pão para sustento da sua família. Quando uma vez estava a começar a amassar, entra pela porta do forno uma mulher desconhecida, mas nova, bela e encantadora, ainda que no semblante se lhe denotava tristeza; sem dar palavra deitou-lhe água na masseira e retirou-se.

A mulher nada lhe disse, mas contou o sucedido ao marido e este respondeu-lhe que se tornasse a ver essa mulher lhe perguntasse o que queria. Dias depois, e à hora de começar a amassar, apareceu a dita mulher. Então a dona do forno pergunta-lhe:


– Quem sois vós, mulher?

– Uma moura, encantada no castelo da vila, e se fores capaz de me desencantar dar-te-ei enormes tesouros que tenho, respondeu ela.


Disse-lhe a outra que aceitava, mas era preciso que lhe dissesse o que ela tinha a fazer, para dar conhecimento ao marido. No rosto da moura raiou a alegria, a sua alma encheu-se de esperança, por lhe parecer chegada a hora de se ver livre de tão penoso cativeiro, e disse:


– Não precisas mais do que ter coragem; na noite de S. João, à meia noite em ponto, hás-de estar no largo do castelo, firme como uma estátua de mármore. Não tenhas medo, não fujas nem fales no teu Deus. O teu marido pode acompanhar-te, mas deve estar oculto. Então irá uma cobra ter contigo, assobiando e fazendo barulho; dar-te á uma volta à cintura e um beijo na testa; depois, logo ali, a sua pele cairá despedaçada em bocados. Não tenhas medo que essa cobra sou eu, e ficarei logo desencantada e livre, e livre ficará toda a minha riqueza e toda será tua.

Assim ficou combinado, e ao bater no relógio as doze horas da noite de S. João lá estava a mulher no local designado, e o marido oculto, ali, noutro lugar, próximo.

Pouco depois ouvem-se assobios medonhos, um barulho estranho e a cobra aparece ao longe assobiando de instante a instante. Mas a mulher, apesar de resoluta, começou a apavorar-se, e quando a cobra ia chegando próximo dela, foge transida de medo, gritando:


– Ai Jesus, quem me acode! Ai Jesus, quem me acode!...

Ao mesmo tempo a moura, que se julgava quase livre, rompe em doloridos e longos suspiros, exclamando:

– Ai que me dobraste o meu encanto, mulher! Ai que estou perdida para séculos!


E nas trevas da noite foram-se perdendo aqueles dolorosos e enternecidos ais da moura encantada, enquanto a mulher e o marido fugiam aterrados para casa.

Em Ventozelo


Os forninhos de Alvagueira


No sítio de Alvagueira, que fica a meia encosta do rio Douro, na margem direita da ribeira de Ventuzelo, existem umas palas nos rochedos chamados Forninhos de Alvagueira, e é tradição que foram habitados por uma gentinha brava que se alimentava de frutas e de répteis. Esta gente saía de manhã cedo pelos campos fora e recolhia à noite.

Frequentava este sítio uma pastora guardando o seu gado, de quem a tal gente era muito amiga e que muitas noites dormia junto ao curral que ficava a pequena distância do caminho dos forninhos. A pastora chamava-se Maria, e de noite quando os selvagens passavam, perguntavam sempre lá do caminho:


– Ó Maria! Tu estás lá?

– Eu estou – respondia ela.

– Pois eu cá vou – tornavam eles.


Próximo dos forninhos havia uns moinhos ribeirinhos que ainda hoje existem, e diz-se que uma ocasião o moleiro estava a assar, a um grande lume que tinha feito, um bocado de carne de porco aproveitando o pingo numa fatia de pão. Mas de repente entra pelo moinho dentro um homem dos da gentinha brava, com um grande espeto enfiado de lagartos e outros répteis, e pôs-se também a assá-los ao lume, começando por querer pingar com o assado do seu espeto no pão do moleiro, dizendo:


– Pinga tu e pingo eu, e comeremos ambos de mistura.

Ao que respondia o moleiro:

– Assar sim, mas pingar não.


Mas o homenzinho tanto teimou em querer pingar no pão do moleiro que este, já enfadado de o aturar, pega no espeto, que era uma vara de madeira, e dá-lhe duas ou três bordoadas com ele, e foge para Ventuzelo todo atrapalhado, com medo que a gente dos forninhos viesse atrás dele e o agarrasse no caminho. O certo é que o moleiro não voltou mais ao moinho e este esteve abandonado largos anos.


Capela de Santa Cruz


Situada no sítio das Eiras, em Ventuzelo, concelho de Mogadouro] é tradição que foi mandada construir por um dos ascendentes dos Távoras que, andando em batalha contra os mouros40, pediu a Deus que o auxiliasse, e se ganhasse a batalha iria, depois dos mouros serem expulsos de Portugal, todos os anos visitar Jerusalém.
Ganha a batalha, derrotados os mouros em toda a linha e expulsos de Portugal, começou ele a cumprir a sua promessa. Foi visitar Jerusalém um certo número de vezes, mas por fim, já velho e cansado com o peso dos anos e trabalhos da vida, não pôde acabar de cumprir a sua promessa. Prometeu então que, em recompensa, mandaria construir um templo no termo de Mogadouro, onde os cristãos pudessem visitar tudo quanto tinha visto de grandioso em Jerusalém.

Em Urrós


Ponta de relha de arado ou pé de ovelha...


Castelo de Bouça de Aires

No termo de Urrós [no concelho de Mogadouro] fica o sítio chamado Picão de Bouça de Aires, a que chamam também Castelo de Bouça de Aires, formado por uns rochedos graníticos, muito altos, onde têm aparecido alicerces de casas e onde há uma escada cavada na rocha de quatro ou cinco degraus. Um dos rochedos apresenta cavidades ligadas umas a outras por sulcos, que, cheios de água pluvial durante o inverno, servem de fonte para muito tempo. Foram abertas pelos mouros, diz o povo.

O Castelo de Bouça de Aires apresenta ainda restos de muros nas partes em que a defesa natural fraquejava e são constante preocupação dos sonhadores de tesouros, que frequentemente lá vão esquadrinhar, apesar de nada terem encontrado, mesmo quando sonham com o tesouro três noites a eito, auspício infalível no seu entender e no de toda a crendice bragançana. Numa das escavações apareceram umas contas pretas, assaz volumosas, indício de já estar perto o encanto, mas rugiram logo estampidos terríficos e tudo fugiu aterrado.


A lenda verseja:


Entre o Castelo de Bouça de Aires

E o sítio de Correchá

Há um bezerro de ouro

Quem o achar seu será.


Mas só aparecerá na ponta da relha de um arado a lavrar, porém até hoje ainda nada surdiu...